101 – Primeiro Dia A PRIMEIRA CONTEMPLAÇÃO É DA ENCARNAÇÃO. Consta da oração preparatória, três preâmbulos e três pontos e um colóquio Oração preparatória, a costumada [46].
102 – Primeiro preâmbulo é recordar a história do assunto que tenho de contemplar, que é aqui como as três pessoas divinas observavam toda a planície ou redondeza de todo o mundo, cheia de homens, e como, vendo que todos desciam ao inferno, se determina, na sua eternidade, que a segunda pessoa se faça homem, para salvar o género humano. E, assim, chegada a plenitude dos tempos, é enviado o anjo S. Gabriel a nossa Senhora [262].
103 – Segundo [preâmbulo]. Composição, vendo o lugar. Aqui será ver a grande extensão e redondeza do mundo, no qual estão tantas e tão diversas gentes. Assim mesmo, depois, particularmente, a casa e aposentos de nossa Senhora, na cidade de Nazaré, na província de Galileia.
104 – Terceiro [preâmbulo]. Pedir o que quero; será aqui pedir conhecimento interno do Senhor que, por mim, se fez homem, para que mais o ame e o siga.
105 – Nota. Convém aqui notar que esta mesma oração preparatória, sem a mudar, como está dito no princípio [46;49], assim como os mesmos três preâmbulos se hão-de fazer nesta semana e nas outras seguintes, mudando [nestes] a forma segundo a matéria proposta.
106 – Primeiro ponto é ver as pessoas, umas e outras. E, primeiro, as da face da terra, em tanta diversidade, assim em trajes como em gestos: uns brancos e outros negros, uns em paz e outros em guerra, uns chorando e outros rindo, uns sãos e outros enfermos, uns nascendo e outros morrendo, etc; segundo, ver e considerar as três pessoas divinas, como [que] no seu assento real ou trono da sua divina majestade, como observam toda a face e redondeza da terra, e todas as gentes em tanta cegueira, e como morrem e descem ao inferno; terceiro, ver nossa Senhora e o anjo que a saúda. E reflectir para tirar proveito de tal vista.
107 – Segundo [ponto]: ouvir o que dizem as pessoas sobre a face da terra, a saber, como falam umas com as outras, como juram e blasfemam, etc.Assim mesmo, o que dizem as pessoas divinas, a saber: «Façamos a redenção do género humano, etc.» E, depois, as palavras do anjo e de nossa Senhora. E reflectir, depois, para tirar proveito de suas palavras.
108 – Terceiro [ponto]: depois, observar o que fazem as pessoas sobre a face da terra, como ferir, matar, ir para o inferno, etc. Assim mesmo, o que fazem as pessoas divinas, a saber, realizar a santíssima Encarnação, etc. E, assim mesmo, o que fazem o anjo e nossa Senhora, a saber, o anjo cumprindo o seu ofício de legado, e nossa Senhora humilhando-se e dando graças à divina Majestade. E, reflectir, depois, para tirar algum proveito de cada uma destas coisas.
109 – Ao fim, se há-de fazer um colóquio, pensando o que devo dizer às três Pessoas divinas ou ao Verbo eterno encarnado, ou à Mãe e Senhora nossa, pedindo, conforme em si sentir, para mais seguir e imitar a nosso Senhor, assim recém-encarnado, dizendo um Pai nosso.
110 – A SEGUNDA CONTEMPLAÇÃO É DO NASCIMENTO Oração preparatória, a habitual [46]
111 – Primeiro preâmbulo é a história; e será aqui como desde Nazaré saíram nossa Senhora, grávida quase de nove meses, como se pode piamente meditar, assentada numa jumenta, e José e uma serva, levando um boi, para ir a Belém pagar o tributo que César impôs em todas aquelas terras [264].
112 – Segundo [preâmbulo], composição vendo o lugar; será aqui ver, com a vista imaginativa, o caminho desde Nazaré a Belém, considerando o comprimento, a largura, e se tal caminho era plano ou se por vales ou encostas. Assim mesmo, observar o lugar ou gruta do nascimento, se era grande, pequeno, baixo, alto, e como estava preparado.
113 – Terceiro [preâmbulo] será o mesmo e da mesma forma que na contemplação precedente.
114 – Primeiro ponto é ver as pessoas, a saber, ver nossa Senhora e José e a serva, e o Menino Jesus depois de já ter nascido, fazendo-me eu um pobrezinho e escravozito indigno que os observa, os contempla e os serve em suas necessidades, como se presente me achasse, com todo o acatamento e reverência possível; e, depois, reflectir em mim mesmo para tirar algum proveito.
115 – Segundo [ponto]: observar, advertir e contemplar o que falam; e, reflectindo em mim mesmo, tirar algum proveito.
116 – Terceiro [ponto]: observar e considerar o que fazem, como é caminhar e trabalhar, para que o Senhor venha a nascer em suma pobreza e, ao cabo de tantos trabalhos de fome, de sede, de calor e de frio, de injúrias e afrontas, para morrer na cruz; e tudo isto por mim; depois, reflectindo, tirar algum proveito espiritual.
117 – Acabar com um colóquio, como na contemplação precedente, e com um Pai nosso.
118 – A TERCEIRA CONTEMPLAÇÃO SERÁ A REPETIÇÃO do primeiro e do segundo exercício Depois da oração preparatória e dos três preâmbulos, se fará a repetição do primeiro e segundo exercício, notando sempre algumas passagens mais importantes, onde a pessoa tenha sentido algum conhecimento, consolação ou desolação; fazendo também um colóquio, ao fim, e [rezando] um Pai nosso [62].
119 – Nota. Nesta repetição e em todas as seguintes, se observará a mesma ordem de proceder que nas repetições da primeira semana, mudando a matéria e conservando-se a forma.
120 – A QUARTA CONTEMPLAÇÃO SERÁ [OUTRA] REPETIÇÃO da primeira e da Segunda da mesma maneira que se fez na repetição anterior
121 – A QUINTA [CONTEMPLAÇÃO] SERÁ APLICAR OS CINCO SENTIDOS sobre a primeira e segunda contemplação Depois da oração preparatória e dos três preâmbulos, aproveita passar os cinco sentidos da imaginação pela primeira e segunda contemplação, da maneira seguinte:
122 – Primeiro ponto é ver as pessoas, com a vista imaginativa, meditando e contemplando em particular as suas circunstâncias, e tirando algum proveito desta vista.
123 – Segundo [ponto]: ouvir, com o ouvido, o que falam ou podem falar; e, reflectindo em si mesmo, tirar disso algum proveito.
124 – Terceiro [ponto]: aspirar e saborear, com o olfacto e com o gosto, a infinita suavidade e doçura da divindade, da alma e das suas virtudes e de tudo, conforme a pessoa que se contempla. Reflectir em si mesmo e tirar proveito disso.
125 – Quarto [ponto]: tocar, com o tacto, por exemplo, abraçar e beijar os lugares que essas pessoas pisam e onde se sentam; sempre procurando tirar proveito disso.
126 – Acabar-se-á com um colóquio, como na primeira e segunda contemplação [109, 117], e com um Pai nosso.
[INDICAÇÕES TÉCNICAS]
127 – Primeira nota. É de advertir, para toda esta semana e as outras seguintes, que só tenho de ler o mistério da contemplação que imediatamente tenho de fazer, de maneira que, por então, não leia nenhum mistério que naquele dia ou naquela hora não haja de fazer, para que a consideração de um mistério não estorve à consideração do outro [11].
[a. Escalonamento da oração]
128 – Segunda [nota]. O primeiro exercício da Encarnação se fará à meia noite; o segundo, ao amanhecer; o terceiro, à hora da missa; o quarto, à hora de vésperas, e o quinto, antes da hora de jantar, estando, por espaço de uma hora, em cada um dos cinco exercícios [12, 72, 133, 148, 159]; e a mesma ordem se terá em tudo o que vai seguir.
129 – Terceira [nota]. É de advertir que, se a pessoa que faz os Exercícios é idosa ou débil, ou se, ainda que forte, ficou de alguma maneira debilitada da primeira semana, é melhor que, nesta Segunda semana, ao menos algumas vezes, não se levantando à meia-noite, faça, pela manhã, uma contemplação, e outra à hora da missa, e outra antes de almoçar, e, sobre elas, uma repetição à hora de vésperas, e depois a aplicação de sentidos antes de jantar.
[b. Ambientação da oração]
130 – Quarta [nota]. Nesta segunda semana, em todas as dez adições que se expuseram na primeira semana, se hão de mudar a segunda, a sexta, a sétima e a décima [74, 78, 79, 82]. Na segunda será: logo ao despertar, pôr diante de mim a contemplação que tenho de fazer, desejando conhecer mais o Verbo eterno encarnado para mais o servir e seguir. E a sexta será: trazer à memória, frequentemente, a vida e mistérios de Cristo nosso Senhor, começando da sua Encarnação até ao lugar ou mistério que vou contemplando. E a sétima será que a pessoa que se exercita tanto se deve guardar de ter obscuridade ou claridade, usar de boas temperaturas ou diversas, quanto sentir que [isso] lhe pode aproveitar e ajudar para achar o que deseja. E na décima adição, o que se exercita deve haver-se conforme os mistérios que contempla; porque alguns pedem penitência e outros não. De maneira que se façam todas as dez adições, com muito cuidado.
131 – Quinta nota. Em todos os exercícios, excepto no da meia noite e no da manhã, se tomará o equivalente da segunda adição [74], da maneira que se segue: logo que me recorde que é hora do exercício que tenho de fazer, antes de ir a ele, porei diante mim aonde vou e diante de quem, resumindo um pouco o exercício que tenho de fazer e, depois, fazendo a terceira adição, entrarei no exercício.
132 – Segundo Dia. Tomar por PRIMEIRA E SEGUNDA CONTEMPLAÇÃO A APRESENTAÇÃO NO TEMPLO [268], e a FUGA COMO EM DESTERRO PARA O EGIPTO [269]; e sobre estas duas contemplações se farão DUAS REPETIÇÕES e a APLICAÇÃO DOS CINCO SENTIDOS, da mesma maneira que se fez no dia precedente.
133 – Nota. Algumas vezes aproveita, ainda que o que se exercita esteja robusto e disposto, mudar, desde este segundo dia até ao quarto inclusive, para melhor achar o que deseja, tomando só uma contemplação, ao amanhecer, e outra, à hora da missa, e repetir sobre elas, à hora da vésperas, e aplicar os sentidos, antes de jantar.
134 – Terceiro Dia, COMO O MENINO JESUS ERA OBEDIENTE A SEUS PAIS EM NAZARÉ [271], e depois COMO O ACHARAM NO TEMPLO [272]; e assim, em seguida, fazer as DUAS REPETIÇÕES e a APLICAÇÃO DOS CINCO SENTIDOS.
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