[C. «CONSIDERAÇÃO E CONTEMPLAÇÃO DO PECADO»] Números 45 a 90

[C. «CONSIDERAÇÃO E CONTEMPLAÇÃO DO PECADO»]  Números 45 a 90

 

45 – O PRIMEIRO EXERCÍCIO É MEDITAÇÃO COM AS TRÊS POTÊNCIAS

 

SOBRE O PRIMEIRO, SEGUNDO E TERCEIRO PECADO. Compreende, depois de uma oração preparatória e dois preâmbulos, três pontos principais e um colóquio

 

46 – A Oração preparatória é pedir graça a Deus nosso Senhor para que todas as minhas intenções, acções e operações sejam puramente ordenadas para serviço e louvor de sua divina majestade.

 

47 – O Primeiro preâmbulo é composição, vendo o lugar. Aqui é de notar que, na contemplação ou meditação visível, assim como contemplar a Cristo nosso Senhor, o qual é visível, a composição será ver, com a vista da imaginação, o lugar material onde se acha aquilo que quero contemplar. Digo o lugar material, assim como um templo ou monte onde se acha Jesus Cristo ou Nossa Senhora, conforme o que quero contemplar. Na invisível, como é aqui a dos pecados, a composição será ver, com a vista imagi-nativa e considerar estar a minha alma encarcerada neste corpo corruptível e todo o composto neste vale, como desterrado, entre brutos animais. Digo todo o composto de alma e corpo.

 

48 – O Segundo [preâmbulo] é pedir a Deus nosso Senhor o que quero e desejo. O pedido deve ser conforme a matéria proposta, a saber, se a contemplação é de ressurreição, pedir gozo com Cristo gozoso; se é de Paixão, pedir pena, lágrimas e tormento com Cristo atormentado ?203?. Aqui será pedir vergonha e confusão de mim mesmo, vendo quantos foram condenados por um só pecado mortal, e quantas vezes eu mereceria ser condenado para sempre por tantos pecados meus.

 

49 – Nota. Antes de todas as contemplações ou meditações, devem-se fazer sempre a oração preparatória, sem se mudar, e os dois preâmbulos já ditos, mudando-os, algumas vezes, segundo a matéria proposta.

 

50 – O Primeiro ponto será exercitar a memória sobre o primeiro pecado, que foi o dos anjos, e logo, sobre o mesmo, o entendimento discorrendo, depois, a vontade, querendo recordar e entender tudo isto para mais me envergonhar e confundir; trazendo em comparação de um pecado dos anjos, tantos pecados meus; e como eles, por um pecado, foram para o inferno, sendo tantas as vezes que eu o mereci por tantos mais. Digo trazer à memória o pecado dos anjos: como sendo eles criados em graça, não querendo servir-se da sua liberdade para prestar reverência e obediência a seu Criador e Senhor, caindo em soberba, passaram da graça à perversidade e foram lançados do céu ao inferno; e assim, depois, discorrer mais em particular com o entendimento e, depois, mover mais os afectos com a vontade.

 

51 – Segundo [ponto], fazer outro tanto, a saber, exercitar as três potências sobre o pecado de Adão e Eva; trazendo à memória como, pelo tal pecado, fizeram tanto tempo penitência, e quanta corrupção veio ao género humano, indo tanta gente para o inferno. Digo trazer à memória o segundo pecado, o de nossos primeiros pais: como, depois que Adão foi criado no campo damasceno e posto no paraíso terreal, e que Eva foi criada da sua costela, sendo-lhes proibido que comessem da árvore da ciência, eles comeram e por isso pecaram; e como, depois, vestidos de túnicas de peles e expulsos do paraíso, viveram, sem a justiça original que tinham perdido, toda a sua vida em muitos trabalhos e muita penitência; e, depois, discorrer com o entendimento mais em particular, usando também da vontade como está dito.

 

52 – Terceiro [ponto], do mesmo modo, fazer outro tanto sobre o terceiro pecado, o pecado particular de cada um que por um pecado mortal tenha ido para o inferno, e o de muitos outros, sem conta, que para lá foram por menos pecados do que eu. Digo fazer outro tanto sobre o terceiro pecado particular, trazendo à memória a gravidade e malícia do pecado contra o seu Criador e Senhor, discorrer com o entendimento como, em pecar e agir contra a bondade infinita, tal pessoa foi justamente condenada para sempre; e acabar com a vontade, como está dito.

 

53 – Colóquio. Imaginando a Cristo nosso Senhor diante de mim e pregado na cruz, fazer um colóquio: como de Criador veio a fazer-se homem, e de vida eterna a morte temporal, e assim a morrer por meus pecados. E, assim em colóquio, interrogar-me a mim mesmo: o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo, o que devo fazer por Cristo; e vendo-o a Ele em tal estado e assim pendente na cruz, discorrer pelo que se me oferecer.

 

54 – O colóquio faz-se, propriamente, falando, assim como um amigo fala a outro, ou um servo a seu senhor: ora pedindo alguma graça, ora confessando-se culpado por algum mal feito, ora comunicando as suas coisas e querendo conselho nelas. E dizer um Pai Nosso.

 

55 – SEGUNDO EXERCÍCIO É MEDITAÇÃO DOS PECADOS e compreende, depois da oração preparatória e dois preâmbulos, cinco pontos e um colóquio

 

A Oração preparatória seja a mesma [46; 49]. O Primeiro preâmbulo será a mesma composição [47]. O Segundo [preâmbulo] é pedir o que quero: será aqui pedir acrescida e intensa dor e lágrimas por meus pecados.

 

56 – O Primeiro ponto é o processo dos pecados, a saber, trazer à memória todos os pecados da vida, considerando ano por ano, ou período por período; para o que aproveitam três coisas: – a primeira, considerar o lugar e a casa onde habitei; a segunda, a convivência que tive com outros; a terceira, o ofício em que vivi.

 

57 – Segundo ?ponto?, ponderar os pecados, considerando a fealdade e a malícia que cada pecado mortal cometido tem em si, mesmo que não fosse proibido.

 

58 – Terceiro [ponto], considerar quem sou eu, diminuindo-me por exemplos: Primeiro, quanto sou eu em comparação com todos os homens; Segundo, que coisa são os homens, em comparação com todos os anjos e santos do paraíso; Terceiro, considerar que coisa é tudo o criado, em comparação com Deus: pois eu só, que posso ser? Quarto, considerar toda a minha corrupção e fealdade corporal; Quinto, considerar-me como uma chaga e um abcesso, donde saíram tantos pecados, tantas maldades e peçonha tão repugnante.

 

59 – Quarto [ponto], considerar quem é Deus, contra quem pequei, segundo os seus atributos, comparando-os aos seus contrários em mim: a sua sapiência à minha ignorância, a sua omnipotência à minha fraqueza, a sua justiça à minha iniquidade, a sua bondade à minha malícia. 60 – Quinto [ponto], exclamação admirativa, com acrescido afecto, discorrendo por todas as criaturas, como me têm deixado com vida e conservado nela; os anjos, que sendo a espada da justiça divina, como me têm suportado, guardado e rogado por mim; os santos, como têm estado a interceder e rogar por mim; e os céus, sol, lua, estrelas e elementos, frutos, aves, peixes e animais; e a terra, como não se abriu para me tragar, criando novos infernos para sempre penar neles.

 

61 – [Colóquio]. Acabar com um colóquio sobre a misericórdia, buscando razões e dando graças a Deus nosso Senhor porque me deu vida até agora, propondo emenda, com a sua graça, para o futuro. Pai Nosso

 

62 – O TERCEIRO EXERCÍCIO É A REPETIÇÃO DO PRIMEIRO E SEGUNDO, fazendo três colóquios Depois da oração preparatória e dois preâmbulos, será repetir o primeiro e segundo exercício, notando e fazendo pausa nos pontos em que tenha sentido maior consolação ou desolação ou maior sentimento espiritual. Depois do que, farei três colóquios, da maneira que se segue:

 

63 – Primeiro colóquio a Nossa Senhora, para que me alcance graça de seu Filho e Senhor para três coisas: a primeira, para que eu sinta interno conhecimento dos meus pecados e aborrecimento deles; a segunda, para que sinta a desordem das minhas operações, para que, aborrecendo-a, me emende e me ordene; a terceira, pedir conhecimento do mundo, para que, aborrecendo-o, aparte de mim as coisas mundanas e vãs. Depois disto, uma Avé-Maria. Segundo [colóquio], outro tanto ao Filho, para que mo alcance do Pai. Depois disto, Alma de Cristo. Terceiro [colóquio], outro tanto ao Pai, para que o mesmo Senhor eterno mo conceda. Depois disto, um Pai Nosso.

 

64 – O QUARTO EXERCÍCIO FAZ-SE RESUMINDO ESTE MESMO TERCEIRO Disse «resumindo», para que o entendimento, sem divagar, discorra assiduamente pela reminiscência das coisas contempladas nos exercícios passados; e fazendo os mesmos três colóquios.

 

65 – O QUINTO EXERCÍCIO É A MEDITAÇÃO DO INFERNO. Compreende, depois da oração preparatória e dois preâmbulos, cinco pontos e um colóquio A oração preparatória seja a costumada [46]. Primeiro preâmbulo, a composição, é aqui ver, com a vista da imaginação, o comprimento, largura e profundidade do inferno. Segundo ?preâmbulo?, pedir o quero: será aqui pedir interno sentimento da pena que padecem os condenados, para que, se do amor do Senhor eterno me esquecer, por minhas faltas, ao menos o temor das penas me ajude a não cair em pecado.

 

66 – Primeiro ponto será ver, com a vista da imaginação, os grandes fogos e, as almas, como que em corpos incandescentes.

 

67 – Segundo [ponto], ouvir, com os ouvidos, prantos, alaridos, gritos, blasfémias contra Cristo nosso Senhor e contra todos os seus Santos.

 

68 – Terceiro [ponto], cheirar, com o olfacto, fumo, enxofre, sentina e coisas em putrefacção.

 

69 – Quarto [ponto], gostar, com o gosto, coisas amargas, assim como lágrimas, tristeza e o verme da consciência.

 

70 – Quinto [ponto], tocar, com o tacto, a saber: como os fogos tocam e abrasam as almas.

 

71 – Fazendo um colóquio a Cristo nosso Senhor, trazer à memória as almas que estão no inferno; umas porque não acreditaram na sua vinda; outras, acreditando, não agiram segundo os seus mandamentos. Fazer três grupos: o primeiro, antes da vinda [de Cristo]; o segundo, durante a sua vida; o terceiro, depois da sua vida neste mundo. Depois disto, dar-lhe graças, porque não me deixou cair em nenhum destes grupos, pondo fim a minha vida. E, assim, como até agora tem tido sempre de mim tanta piedade e misericórdia. Acabar com um Pai Nosso.

 

[INDICAÇÕES TÉCNICAS] [a. Escalonamento da oração diária]

 

72 – Nota. O primeiro exercício se fará, à meia-noite; o segundo, logo ao levantar-se, pela manhã; o terceiro, antes ou depois da missa, em suma, que seja antes do almoço; o quarto, à hora de Vésperas; o quinto, uma hora antes do jantar. Esta distribuição de horas, pouco mais ou menos, sempre a entendo em todas as quatro semanas, conforme a idade, disposição e temperamento ajudem a pessoa que se exercita para fazer os cinco exercícios ou menos. [b. Ambientação da oração]

 

73 – Adições para melhor fazer os exercícios e para melhor achar o que deseja.

A Primeira adição é: depois de deitado, antes de adormecer, pensar, por espaço de uma Avé-Maria, a que hora tenho de me levantar e para quê, resumindo o exercício que tenho de fazer.

 

74 – Segunda, quando despertar, não dando lugar a outros pensamentos, advertir logo no que vou contemplar no primeiro exercício da meia noite, excitando-me a confusão de tantos pecados meus, propondo exemplos: como se um cavaleiro se achasse diante de seu rei e de toda a sua corte, envergonhado e confundido de muito ter ofendido aquele de quem antes recebeu muitos dons e muitas mercês. E assim mesmo, no segundo exercício, reconhecer-me um grande pecador e que vou, algemado, isto é, preso com cadeias, comparecer diante do sumo e eterno Juiz, lembrando para exemplo, como os encarcerados e algemados, e já merecedores de morte, comparecem ante seu juiz temporal. E, com estes pensamentos, vestir-me; ou com outros, conforme a matéria proposta.

 

75 – Terceira, a um passo ou dois do lugar onde tenho de meditar ou contemplar, pôr-me de pé, por espaço de um Pai Nosso, levantado o espírito ao alto, considerando como Deus nosso Senhor me olha, etc; e fazer uma reverência ou uma genuflexão.

 

76 – Quarta, entrar na contemplação, ora de joelhos, ora prostrado em terra, ora deitado de rosto para cima, ora sentado, ora de pé, andando sempre a buscar o que quero. Advertiremos em duas coisas: – A primeira é que se acho o que quero, de joelhos, não passarei adiante, e se prostrado, do mesmo modo, etc. – A segunda, que no ponto em que achar o que quero, aí repousarei, sem ter ânsia de passar adiante, até que me satisfaça [254].

 

77 – Quinta, depois de acabado o exercício, por espaço de um quarto de hora, ou sentado ou passeando, observarei como me correram as coisas na contemplação ou meditação. E, se mal, examinarei a causa donde procede, e uma vez descoberta, arrepender-me-ei, para me emendar daí em diante. E, se bem, darei graças a Deus nosso Senhor e farei, outra vez, da mesma maneira.

 

78 – Sexta, não querer pensar em coisas de prazer ou alegria, como de glória, ressurreição, etc; porque, para sentir pena, dor e lágrimas pelos nossos pecados, o impede qualquer consideração de gozo e alegria; mas Ter antes em mente o querer sentir dor e pena, trazendo mais na memória a morte e o juízo.

 

79 – Sétima, privar-me de toda a claridade, para o mesmo fim, fechando janelas e portas, o tempo que estiver no quarto, a não ser para rezar, ler e comer.

 

80 – Oitava, não rir nem dizer coisa que provoque o riso.

 

81 – Nona, refrear a vista, excepto ao receber ou despedir a pessoa com quem falar.

 

82 – Décima adição é sobre a penitência, a qual se divide em interna e externa. A interna é doer-se de seus pecados, com firme propósito de não cometer esses nem quaisquer outros. A externa, ou fruto da primeira, é castigo dos pecados cometidos. E, pratica-se, principalmente, de três maneiras.

 

83 – A primeira [maneira] é sobre o comer, a saber: quando tiramos o supérfluo, não é penitência, mas temperança; penitência é quando tiramos do conveniente. E, quanto mais e mais, maior e melhor, contando que não se arruine a pessoa, nem se siga enfermidade notável.

 

84 – A segunda [maneira] é sobre o modo de dormir. E também não é penitência tirar o supérfluo de coisas delicadas ou moles. Mas é penitência quando no modo [de dormir] se tira do conveniente; e quanto mais e mais, melhor, contanto que não se arruine a pessoa, nem se siga enfermidade notável, nem muito menos se tire do sono conveniente, a não ser que, por ventura, tenha hábito vicioso de dormir demasiado, para chegar à justa medida.

 

85 – A terceira [maneira] é castigar a carne, a saber, dando-lhe dor sensível, a qual se dá, trazendo cilícios ou cordas ou barras de ferro sobre a carne, flagelando-se ou ferindo-se e outras formas de aspereza.

 

86 – Nota. O que parece mais prático e mais seguro na penitência é que a dor seja sensível na carne, mas que não penetre nos ossos; de maneira que cause dor e não enfermidade. Pelo que, parece que é mais conveniente flagelar-se com cordas delgadas que dão dor por fora, e não doutra maneira que cause enfermidade notável por dentro.

 

87 – A primeira nota é que as penitências exteriores se fazem principalmente para três efeitos: – primeiro, para satisfação dos pecados passados; – segundo, para vencer-se a si mesmo, a saber, para que a sensualidade obedeça à razão e todas as partes inferiores estejam mais sujeitas às superiores; – terceiro, para buscar e achar alguma graça ou dom que a pessoa quer e deseja, como, por exemplo, se deseja ter interna contrição de seus pecados, ou chorar muito sobre eles ou sobre as penas e dores que Cristo nosso Senhor passava na sua Paixão, ou para solução de alguma dúvida em que a pessoa se acha.

 

88 – A segunda [nota] é para advertir que a primeira e segunda adição se hão de fazer para os exercícios da meia noite e da manhã, e não para os que se farão noutros tempos; e a quarta adição nunca se fará na igreja, diante doutras pessoas, mas em particular, como por exemplo em casa, etc.

 

89 – A terceira [nota] é que, quando a pessoa que se exercita ainda não acha o que deseja, como lágrimas, consolações, etc., muitas vezes é proveitoso fazer mudança no comer, no dormir, e noutros modos de fazer penitência; de maneira que nos mudemos, fazendo, dois ou três dias, penitência, e outros dois ou três, não; porque a alguns convém fazer mais penitência e a outros menos; e também porque, muitas vezes, deixamos de fazer penitência, por amor dos sentidos e por juízo erróneo de que a pessoa não a poderá tolerar sem notável enfermidade; e, outras vezes, pelo contrário, fazemos demasiada, pensando que o corpo a possa suportar; e, como Deus nosso Senhor conhece infinitamente melhor a nossa natureza, muitas vezes, nas tais mudanças, dá a sentir a cada um o que lhe convém.

 

90 – A quarta [nota] é que o exame particular se faça para tirar defeitos e negligências nos exercícios e adições; e o mesmo se diga na segunda, terceira e quarta semana.

 

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