[C. INTRODUÇÃO AO DISCERNIMENTO DE APELOS] Números 135 a 157

[C. INTRODUÇÃO AO DISCERNIMENTO DE APELOS]  Números 135 a 157

 

135 – Preâmbulo para considerar estados Considerado já o exemplo que Cristo nosso Senhor nos deu para o primeiro estado, que consiste na guarda dos mandamentos, vivendo ele em obediência a seus pais; assim como também para o segundo, que é de perfeição evangélica, quando ficou no templo, deixando a seu pai adoptivo e a sua mãe natural, para se entregar a puro serviço de seu Pai eternal, juntamente com a contemplação da sua vida, começaremos agora a investigar e a pedir em que vida ou estado de nós se quer servir Sua Divina Majestade. E assim, para alguma introdução a isso, no primeiro exercício seguinte, veremos a intenção de Cristo nosso Senhor e, em contrário, a do inimigo da natureza humana; e como nos devemos dispor, para chegar à perfeição em qualquer estado ou vida que Deus nosso Senhor nos der a escolher.

 

136 – Quarto dia, MEDITAÇÃO [DA PARÁBOLA] DE DUAS BANDEIRAS, uma, a de Cristo, sumo capitão e Senhor nosso, outra, a de Lúcifer, mortal inimigo da nossa natureza humana. Oração preparatória, a habitual [46].

 

137 – Primeiro preâmbulo é a história. Será aqui como Cristo chama e quer a todos debaixo de sua bandeira, e Lúcifer, ao contrário, debaixo da sua.

 

138 – Segundo [preâmbulo], composição, vendo o lugar. Será aqui ver um grande campo de toda aquela região de Jerusalém, onde o sumo capitão general dos bons é Cristo nosso Senhor; outro campo na região de Babilónia, onde o caudilho dos inimigos é Lúcifer.

 

139 – Terceiro [preâmbulo]. Pedir o que quero; e será aqui pedir conhecimento dos enganos do mau caudilho, e ajuda para deles me guardar; e conhecimento da vida verdadeira que mostra o sumo e verdadeiro capitão, e graça para o imitar.

 

140 – Primeiro ponto. Imaginar assim como se se assentasse o caudilho de todos os inimigos naquele grande campo de Babilónia, como que numa grande cátedra de fogo e fumo, em figura horrível e espantosa.

 

141 – Segundo [ponto]. Considerar como faz chamamento de inumeráveis demónios e como os espalha, a uns numa cidade e a outros noutra, e assim por todo o mundo, não deixando províncias, lugares, estados nem pessoas algumas em particular.

 

142 – Terceiro [ponto]. Considerar o sermão que lhes faz e como os admoesta a lançar redes e cadeias; que primeiro hão-de tentar com cobiça de riquezas, como costuma, a maior parte das vezes, para que mais facilmente venham a vã honra do mundo e, depois, a grande soberba. De maneira que o primeiro escalão seja de riquezas, o segundo de honra, o terceiro de soberba, e destes três escalões induz a todos os outros vícios.

 

143 – Assim, pelo contrário, se há de imaginar do sumo e verdadeiro capitão, que é Cristo nosso Senhor.

 

144 –Primeiro ponto, considerar como Cristo nosso Senhor se apresenta num grande campo daquela região de Jerusalém, em lugar humilde, formoso e gracioso.

 

145 – Segundo [ponto], considerar como o Senhor de todo o mundo escolhe tantas pessoas, apóstolos, discípulos, etc., e os envia por todo o mundo a espalhar a sua sagrada doutrina por todos os estados e condições de pessoas.

 

146 – Terceiro [ponto], considerar o sermão que Cristo nosso Senhor faz a todos os seus servos e amigos, que envia a esta expedição, encomendando-lhes que queiram ajudar e trazer a todos, primeiro a suma pobreza espiritual, e, se sua divina majestade for servida e os quiser escolher, não menos à pobreza actual; segundo, ao desejo de opróbrios e desprezos, porque destas duas coisas se segue a humildade; de maneira que sejam três os escalões: o primeiro, pobreza contra riqueza; o segundo, opróbrio ou desprezo contra a honra mundana; o terceiro, humildade contra a soberba; e destes três escalões induzam a todas as outras virtudes.

 

147 – Um colóquio a nossa Senhora para que me alcance graça de seu Filho e Senhor, para que eu seja recebido debaixo de sua bandeira, e primeiro em suma pobreza espiritual, e, se sua divina majestade for servido e me quiser escolher e receber, não menos na pobreza actual; segundo, em passar opróbrios e injúrias, para mais nelas o imitar, contanto que as possa passar sem pecado de nenhuma pessoa nem desprazer de sua divina majestade; e, depois disto, uma Avé Maria. Segundo colóquio. Pedir o mesmo ao Filho, para que mo alcance do Pai; e, depois disto, dizer Alma de Cristo. Terceiro colóquio. Pedir o mesmo ao Pai, para que ele mo conceda; e dizer um Pai nosso.

 

148 – Nota. ESTE EXERCÍCIO se fará à meia noite, e depois, outra vez, pela manhã; e, deste mesmo, se farão DUAS REPETIÇÕES, à hora da missa e à hora de vésperas; acabando sempre com os três colóquios, a Nossa Senhora, ao Filho e ao Pai. E o dos BINÁRIOS, que se segue, à hora antes de jantar.

 

149 – No mesmo Quarto Dia, faça-se a MEDITAÇÃO [DA PARÁBOLA] DE TRÊS BINÁRIOS DE HOMENS, para abraçar o melhor. Oração preparatória, a habitual [46] .

 

150 – Primeiro preâmbulo é a história de três binários de homens: cada um deles adquiriu dez mil ducados, não pura ou devidamente por amor de Deus, e querem todos salvar-se e achar em paz a Deus nosso Senhor, tirando de si o peso e impedimento que têm, para isso, na afeição à coisa adquirida.

 

151– Segundo [preâmbulo], composição, vendo o lugar: será aqui ver-me a mim mesmo, como estou diante de Deus nosso Senhor e de todos os seus santos, para desejar e conhecer o que seja mais grato à sua divina bondade.

 

152 – Terceiro [preâmbulo], pedir o que quero. Aqui será pedir graça para escolher o que for mais para glória de sua divina majestade e salvação de minha alma.

 

153 – O Primeiro binário quereria tirar o afecto que tem à coisa adquirida, para achar em paz a Deus nosso Senhor e saber-se salvar, e não põe os meios até à hora da morte.

 

154 – O Segundo [binário] quer tirar o afecto, mas de tal modo o quer tirar que fique com a coisa adquirida, de maneira que venha Deus ali aonde ele quer, e não se determina a deixá-la para ir a Deus, ainda que este fosse o melhor estado para ele.

 

155 – O Terceiro [binário] quer tirar o afecto, mas de tal modo o quer tirar que também não tem afeição a ter a coisa adquirida ou não a ter, mas somente deseja querê-la ou não a querer, conforme Deus nosso Senhor lhe puser na vontade, e a si lhe parecer melhor para serviço e louvor de sua divina majestade; e, entretanto, quer fazer de conta que tudo deixa afectivamente, esforçando-se por não querer aquilo nem nenhuma outra coisa, se não o mover somente o serviço de Deus nosso Senhor; de maneira que o desejo de melhor poder servir a Deus nosso Senhor o mova a tomar a coisa ou a deixá-la.

 

156 – Fazer os mesmos três colóquios que se fizeram na contemplação precedente das Duas Bandeiras [147].

 

157 – Nota. É de notar que, quando nós sentimos afecto ou repugnância contra a pobreza actual, quando não somos indiferentes a pobreza ou riqueza, muito aproveita, para extinguir o tal afecto desordenado, pedir nos colóquios (ainda que seja contra a carne) que o Senhor o escolha para a pobreza actual; e que ele assim o quer, pede e suplica, contanto que seja para serviço e louvor da sua divina bondade [16].

 

VOLTAR PARA O INÍCIO DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO