[a. Momento de a iniciar]
163 – Segunda nota. A matéria das eleições começará, desde a contemplação de Nazaré ao Jordão, inclusive, que é o quinto dia, conforme se declara adiante (169-189)
[b. Princípio e fundamento de «humildade»]
164 – Terceira nota. Antes de entrar nas eleições, para a pessoa se afeiçoar à verdadeira doutrina de Cristo nosso Senhor, aproveita muito considerar e advertir nas seguintes TRÊS MANEIRAS DE HUMILDADE, considerando sobre elas, aos poucos, durante todo o dia, e também fazendo os colóquios, como adiante se dirá [168].
165 – A Primeira maneira de humildade é necessária para a salvação eterna, a saber: que assim me abata e assim me humilhe, quanto em mim seja possível, para que em tudo obedeça à lei de Deus nosso Senhor, de tal sorte que, nem que me fizessem senhor de todas as coisas criadas neste mundo, nem pela própria vida temporal, eu nem esteja a deliberar se hei-de infringir um mandamento, quer divino quer humano, que me obrigue a pecado mortal.
166 – A Segunda [maneira de humildade] é [uma] humildade mais perfeita que a primeira, a saber: se eu me acho em tal ponto que não quero nem me apego mais a ter riqueza que pobreza, a querer honra que desonra, a desejar vida longa que curta, sendo igual serviço de Deus nosso Senhor e salvação da minha alma; e, a tal ponto que, nem por tudo o criado, nem que me tirassem a vida, eu não esteja a deliberar se hei-de cometer um pecado venial.
167 – A Terceira [maneira de humildade] é [uma] humildade perfeitíssima, a saber: quando, incluindo a primeira e a segunda, sendo igual louvor e glória da divina majestade, para imitar e parecer-me mais actualmente com Cristo nosso Senhor, eu quero e escolho antes pobreza com Cristo pobre que riqueza; desprezos com Cristo cheio deles que honras; e desejo mais ser tido por insensato e louco por Cristo que primeiro foi tido por tal, que por sábio ou prudente neste mundo.
168 – Nota. Assim, para quem deseja alcançar esta terceira humildade, muito aproveita fazer os três colóquios dos Binários, já mencionados [156; 147], pedindo que nosso Senhor o queira escolher para esta terceira maior e melhor humildade, para mais o imitar e servir, se for igual ou maior serviço e louvor para sua divina majestade. [c) Preâmbulos de abordagem]
169 – Preâmbulo para fazer eleição.
Em toda a boa eleição, quanto é da nossa parte, o olhar da nossa intenção deve ser simples, tendo somente em vista o fim para que sou criado, a saber, para louvor de Deus nosso Senhor e salvação da minha alma; e assim, qualquer coisa que eu eleger deve ser para que me ajude para o fim para que sou criado, não subordinando nem fazendo vir o fim ao meio, mas o meio ao fim. Assim, acontece que muitos elegem primeiro casar-se, o que é meio, e em segundo lugar, servir a Deus nosso Senhor no casamento, quando servir a Deus é fim. Assim também, há outros que, primeiro querem ter benefícios e, depois, servir a Deus neles [cf. 16; 157]. De maneira que estes não vão direitos a Deus, mas querem que Deus venha direito às suas afeições desordenadas e, por conseguinte, fazem do fim meio e do meio fim; de sorte que o que haviam de pôr primeiro, põem por último. Porque, primeiro, havemos de propor como objectivo querer servir a Deus, que é o fim [179] e, em segundo lugar, tomar um benefício ou casar-me, se mais me convém, que é o meio para o fim. Assim, nenhuma coisa me deve mover a tomar os tais meios ou a privar-me deles, senão somente o serviço e louvor de Deus nosso Senhor e a salvação eterna de minha alma.
170 – [Preâmbulo] para tomar conhecimento de que coisas se deve fazer eleição e compreende quatro pontos e uma nota Primeiro ponto. É necessário que todas as coisas das quais queremos fazer eleição sejam indiferentes ou boas em si mesmas e que militem dentro da Santa Mãe Igreja hierárquica, e não sejam más nem contrárias a ela.
171 – Segundo [ponto]. Há umas coisas que caem sob o âmbito de eleição imutável, como são o sacerdócio, o matrimónio, etc; há outras que caem sob o âmbito de eleição mudável, como o tomar benefícios ou deixá-los, o tomar bens temporais ou renunciar-lhes.
172 – Terceiro [ponto]. Na eleição imutável, uma vez feita a eleição, não há mais que eleger, porque não se pode desatar, como é o matrimónio, o sacerdócio, etc. Só é de atender a que, se não se fez a eleição devida e ordenadamente, sem afeições desordenadas, arrependendo-se, procure fazer boa vida na sua eleição; essa eleição não parece que seja vocação divina, por ser eleição desordenada e oblíqua. Com efeito, muitos nisto erram, fazendo de oblíqua ou de má eleição vocação divina; porque toda a vocação divina é sempre pura e límpida, sem mistura vinda da carne nem de outra afeição alguma desordenada.
173 – Quarto [ponto]. Se alguém fez, devida e ordenadamente, eleição de coisas que estão no âmbito de eleição mudável, e não condescendeu com a carne nem com o mundo, não há motivo para, de novo, fazer eleição, mas sim aperfeiçoar-se naquela que fez, quanto puder.
174 – Nota. É de advertir que, se essa eleição mudável não se fez sincera e bem ordenada, então, quem tiver desejo que de si saiam frutos notáveis e muito agradáveis a Deus nosso Senhor, aproveita em fazer a eleição devidamente. [1. Eleição de estado de vida] [«Tempos» ou estados de alma]
175 – Três tempos para fazer sã e boa eleição em cada um deles O primeiro tempo é quando Deus nosso Senhor move e atrai a vontade de tal modo que, sem duvidar nem poder duvidar, a alma devota segue o que lhe é mostrado. Assim fizeram, por exemplo, S. Paulo e S. Mateus, ao seguirem a Cristo nosso Senhor.
176 – O segundo [tempo é] quando se recebe suficiente clareza e conhecimento por experiência de consolações e desolações e por experiência de discernimento de vários espíritos.
177 – O terceiro tempo é tranquilo, considerando primeiro para que nasceu o homem, a saber, para louvar a Deus nosso Senhor e salvar a sua alma; e, desejando isto, escolhe, como meio, uma vida ou estado dos que a Igreja aprova, afim de ser ajudado no serviço de seu Senhor e salvação de sua alma. Disse tempo tranquilo, quando a alma não é agitada por vários espíritos e usa de suas potências naturais, livre e tranquilamente.
178 – Se no primeiro ou segundo tempo não se faz eleição, seguem-se dois modos para a fazer neste TERCEIRO TEMPO [177]
O Primeiro modo para fazer sã e boa eleição compreende seis pontos: O primeiro ponto é propor diante de mim a coisa sobre a qual quero fazer eleição, como, por exemplo, um ofício ou benefício a tomar ou deixar, ou qualquer outra coisa compreendida no âmbito de eleição mudável.
179 – Segundo [ponto]. É preciso ter como objectivo o fim para que sou criado, que é para louvar a Deus nosso Senhor e salvar a minha alma; e, além disso, achar-me indiferente [23], sem afeição alguma desordenada, de maneira que não esteja mais inclinado nem afeiçoado a tomar a coisa proposta do que a deixá-la, nem mais a deixá-la que a tomá-la ; mas que esteja no meio, como o fiel da balança, afim de seguir aquilo que julgar ser para mais glória e louvor de Deus nosso Senhor e salvação de minha alma [169].
180 – Terceiro [ponto]. Pedir a Deus nosso Senhor queira mover a minha vontade e pôr em minha alma o que devo fazer, quanto à coisa proposta, que mais seja para seu louvor e glória; discorrendo bem e fielmente, com o meu entendimento, e escolhendo conforme a sua santíssima e beneplácita vontade.
181 – Quarto [ponto]. Considerar, raciocinando, quantas vantagens ou proveitos para mim se seguem, com ter o cargo ou benefício proposto, só para louvor de Deus nosso Senhor e salvação de minha alma; e, pelo contrário, considerar também os inconvenientes e perigos que há em tê-lo. Fazer o mesmo na segunda parte, a saber, ver as vantagens e proveitos em o não ter; e também, os inconvenientes e perigos em o não ter.
182 -Quinto [ponto]. Depois de assim ter discorrido e reflectido, sobre todos os aspectos do assunto proposto, ver para onde a razão mais se inclina; e, assim, conforme a maior moção racional, e não conforme moção alguma da sensibilidade, se deve fazer a deliberação sobre o assunto proposto.
183 – Sexto [ponto]. Feita a eleição ou deliberação, deve a pessoa que a fez, ir, com muita diligência, à oração diante de Deus nosso Senhor, e oferecer-lhe essa eleição, para que sua divina majestade a queira receber e confirmar, se for para seu maior serviço e louvor.
184 – O Segundo modo para fazer sã e boa eleição compreende quatro regras e uma nota [338-341] A Primeira [regra] é que aquele amor que me move e me faz eleger tal coisa desça do alto, do amor de Deus; de forma que quem elege, sinta primeiro em si, que o amor maior ou menor que tem à coisa que elege é unicamente por seu Criador e Senhor.
185 – A Segunda [regra] é imaginar um homem a quem nunca tenha visto nem conhecido, e desejando-lhe eu toda a sua perfeição, considerar o que eu lhe diria que fizesse e elegesse para maior glória de Deus nosso Senhor e maior perfeição de sua alma; e, fazendo eu da mesma maneira, guardarei a regra que para o outro proponho.
186 – A Terceira [regra] é considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a norma de proceder que então quereria ter tido, no modo de fazer a presente eleição; e, regulando-me por ela, em tudo, faça a minha determinação.
187 – A Quarta [regra] é, atendendo e considerando como me acharei no dia do juízo, pensar como então quereria ter deliberado sobre o assunto presente; e, a regra que então quereria ter tido, tomá-la agora, para que então me ache com inteiro prazer e gozo.
188 – Nota. Tomadas as regras sobreditas para minha salvação e quietude eterna, farei a minha eleição e oblação a Deus nosso Senhor, conforme ao sexto ponto do primeiro modo de fazer eleição [183]. [2. Eleição de outras opções para a santidade de vida dentro do seu estado]
189 – Para emendar e reformar a própria vida e estado
É de advertir que, para os que estão constituídos em prelatura ou em matrimónio (quer abundem muito em bens temporais quer não), quando não há lugar ou muito pronta vontade para fazer eleição das coisas que caem sob eleição mudável [170-172], aproveita muito, em lugar de fazer eleição, dar forma e modo para emendar e reformar a própria vida e estado de cada um; a saber: ordenando o seu mundo, vida e estado, para glória e louvor de Deus nosso Senhor e salvação de sua alma. Para vir e chegar a este fim, deve considerar e ruminar muito, por meio dos exercícios e modos de eleger, conforme está declarado [164-188], quanta casa e família deve ter, como a deve reger e governar, como a deve ensinar, com a palavra e com o exemplo; do mesmo modo, de seus bens, quanto deve tomar para sua família e casa, e quanto para despender com os pobres e com outras obras pias [337-344], não querendo nem buscando nenhuma outra coisa senão, em tudo e por tudo, maior louvor e glória de Deus nosso Senhor. Porque pense cada um que tanto aproveitará em todas as coisas espirituais, quanto sair de seu próprio amor, querer e interesse.
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