NATUREZA E EXTENÇÃO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO A MARIA, CHAMADA ESCRAVIDÃO DE AMOR

NATUREZA E EXTENÇÃO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO A MARIA, CHAMADA ESCRAVIDÃO DE AMOR

 

É preciso escolher um dia especial para oferecer-se, consagrar-se e sacrificar-se; e isto deve ser feito espontaneamente e por amor, sem receio algum, inteiramente e sem qualquer reserva: nem de bens externos como casa, família, ganhos, nem de bens internos da alma como os méritos, as graças, as virtudes e as satisfações.

 

É bom notar que com esta devoção a alma imola-se a Jesus por Maria com um sacrifício que não é exigido em nenhuma ordem religiosa: com tudo o que a alma tem de mais querido, até com o próprio direito que teria de dispor a seu bel-prazer as próprias orações e satisfações: de maneira que se põem e se deixam todas as coisas à disposição da Santíssima Virgem, que as aplicará como melhor lhe aprouver para a maior glória de Deus, que ela conhece perfeitamente.

 

Deixa-se à sua disposição todo o valor satisfatório e impetratório das boas almas de maneira que depois de se ter feito oblação dele, ainda que sem voto, uma pessoa já se não considera mais senhora de si própria, e a Virgem tanto o pode aplicar a uma alma do purgatório para a aliviar e libertar, como a um pobre pecador para o converter.

 

Também os nossos méritos são confiados com esta devoção às mãos de Maria, mas só para que no-los guarde, aumente e valorize; visto que, de per se, nem os méritos de graça nem os da glória se podem comunicar de uma para outra alma. Todavia, as orações e boas obras oferecemos-lhas para que as aplique a quem melhor entender. E se depois de nos havermos assim consagrado a Nossa Senhora desejarmos ajudar qualquer alma particular do purgatório, salvar qualquer pecado ou favorecer qualquer dos nossos amigos ou inimigos com orações, mortificações, esmolas, sacrifícios, primeiro é necessário pedir-lho a ela e submeter-nos completamente ao que ela dispõe, ainda que o não saibamos. E fiquemos tranquilos que o valor das nossas ações, administrado por aquelas mãos de que o próprio Deus Se serve para nos distribuir as Suas graças e dons, não correrá perigo e será seguramente aplicado segundo a maior glória de Deus!

 

Disse que esta devoção consiste em oferecer-se e consagrar-se a Maria na qualidade de escravo. Há três classes de escravidão. A primeira é a de natureza: bons e maus, todos somos servos de Deus nesta forma. A segunda é a forçada: são condenados a ela os demónios e os réprobos. A terceira é a voluntária de amor e é com esta precisamente que nos devemos consagrar a Deus por Maria, na maneira mais perfeita que uma criatura se possa consagrar ao seu Criador.

 

Notai, por outro lado, a grande diferença que há entre um escravo e um servo. Este exige uma remuneração pelos seus serviços, aquele não. O servo pode deixar quando quiser o patrão e serve-o unicamente por um certo período de tempo; o escravo, ao invés, entregando-se-lhe para sempre, não o pode deixar sem incorrer na injustiça. O simples servo nunca cede ao patrão o direito de vida ou de morte sobre a sua pessoa; pelo contrário, o escravo põe-se completamente nas suas mãos, de maneira que o patrão até o poderia fazer morrer sem temor de justiça. Imediatamente se compreende, porém, que uma semelhante forma de escravidão não se pode dar entre homem e homem, mas unicamente entre o homem e o seu Criador. E por isso não se encontram semelhantes escravos entres os cristãos, mas só entre os turcos e os pagãos.

 

Feliz, mil vezes feliz a alma que, depois de haver sacudido de si com o batismo a escravidão do demónio, se consagra inteiramente a Jesus por meio de Maria como escrava de amor!

 

VOLTAR AO INÍCIO DO SEGREDO DA VIRGEM MARIA